Um diário sobre existir sendo quem não querem que sejamos. Desabafos sobre cotidiano e depressão, banalidades, sinceridade e reflexão.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
Sobre envelhecer
Hoje completo 35 anos. E essa não costuma ser uma data feliz. Especialmente agora que estou fisicamente distante daqueles que mais amo e, neste exato momento, estou só em uma casa que não reconheço como minha. Eu sempre paro, repenso quem sou, o que faço, minhas escolhas e planos, relembro os almoços em família neste dia (de que hoje sinto falta e, sei, não terei de volta), os presentes, as presenças... Lembro dos anos em que não celebrei porque a depressão não me deixou ver/sentir o tanto que eu tinha. Lembro dos anos em que comemorei com entusiasmo assim como dos que nada fiz além de silenciar.
Nos 26-de-janeiro eu sempre me perco... mas hoje me encontrei nesse desabafo (abaixo) que fiz há 3 anos e nele me reconheço ainda. Então, eu deixo aqui nessas palavras que fazem aflorar tantos sentimentos em mim, o meu desejo de que você também se repense, se encontre e continue caminhando. A vida é essa escola - bem clichê! - onde nenhuma lição vem fácil, mas a gente sempre passa no final com muito orgulho, se assim se permitir.
Felicidades para nós!
"32. Três dois. Três dezenas, duas unidades. Ou seria trinta e dois? Alguma dislexia especial entenderia 23. Dois três, vinte e três. Três menos dois. Três vezes dois. O que são esses números entrecortando existências? Por que submetemo-nos a eles? Por que nos entregarmos? Por que nos mapa-astralizamos? Por que nos questionamos e contamos, e celebramos mais um número, uma casinha apenas que tantos temem ou esquecem?
Eu esqueço. Esqueço sempre a não ser que a vida me confronte. São trinta e dois já bem contados diante de vinte frente a um novo começo. É um ser humano que nasce logo ali e que ainda nada sabe. E há quem diga que sabe muito - apesar de não o saber ainda. Essa relatividade da vida me comove, mas a idade não me amedronta. O que mais me encanta nesse número é que ele me define em uma ilusão fabulosa e causa espanto. Pareço ser mais nova e, de fato, sou. Eu sou voz de criança nos momentos mais bonitos, e palavras maduras nas dores da vida. Eu estou uma pele quase sem manchas e quase sem rugas que me tornam juvenil o rosto. O corpo abriga os anos de excessos, atropelos e comemorações exageradas. Eu carrego mais de trinta trezentos-e-sessenta-e-cincos e descubro que mal sei escrever números por extenso na minha própria língua. Eu sou os livros que li, os filmes que vi, as músicas que gosto e mal ouço, as pessoas que conheci, as coisas que faço, as decepções que tive, tenho e sou, as alegrias e amores que vivi, estou e serei. Eu sou os sonhos tidos, realizados, retomados. Sou a realidade que já me torturou e hoje apenas me convive.
Sou uma fé redescoberta e fortalecedora que espero jamais apenas ter. Sou uma alma que se reconhece mais calma, mais esquecida, mais saudosa, mais conformada e perceptiva. Sou mudança constante, para melhor e sempre, para cima e sempre, para o amor e sempre.
Aos trinta e dois eu me pergunto onde foram parar meus almoços em família, meus amigos de infância, os cachorros que não tive, minhas viagens a Londres e Alto Paraíso, minha poesia. Sinto falta das palavras e dos lugares novos diante dos olhos e das mãos, mas então me dou conta de que decidi vivenciar a poesia ao invés de meramente escrevê-la, e transpor as barreiras dos aeroportos e estradas e oceanos e trazer pra o coração a beleza do mundo.
Aos 32 anos de vida estou mais feliz do que nunca comigo e isso faz de mim uma criança, ainda aos 4 anos de idade quando nada fazia sentido, mas e daí? Eu não preciso saber o porque, eu apenas convivo e reflito e admiro e respeito e aprendo e agradeço por ter chegado até aqui."
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Aceitar-se
Sabe o que representa um grande desafio para mim? Ir à praia.
Pois é. Sempre morei em cidades praianas e isso pode ser um problema. O pior é que essa dificuldade vem do simples fato de que eu nunca me aceitei bem. Aceitar-se é, sem dúvidas, o maior de todos os desafios para um deprimido.
A autoestima é uma questão crucial a ser trabalhada em (auto)terapia. Daí vem a possibilidade de auto perdão e, consequentemente, a possibilidade de viver de maneira mais leve e liberta. Pode parecer bobagem para você que vive bem com sua própria imagem, mas para mim aceitar minha aparência física é algo antigo e duro de vencer. O mais estranho disso tudo é que sou considerada bonita para algumas pessoas e elas realmente não compreendem como é possível que eu não esteja satisfeita comigo mesma. É bem verdade que estou fora de forma, além de não estar dentro do padrão de beleza corrente (ou seja, bronzeada, alta, magra e definida), mas isso não me torna uma aberração de biquini.
Bem, é aí que entra o fator 'mente'. Há 10 anos, quando eu tinha um corpo maravilhoso, malhava todos os dias, e tudo que eu comia era gasto da maneira "adequada", eu fazia terapia e já tratava da questão da autoestima. Em uma sessão, portanto, minha psicóloga decidiu fazer um teste. Ela trouxe para a sala duas folhas enormes de papel madeira e colocou uma ao lado da outra de modo que uma pessoas de 1,80 m poderia deitar por cima delas e ainda sobraria papel. O exercício consistia em eu me desenhar do tamanho que eu achava que era, tanto em altura quanto em largura. Assim eu o fiz. Depois, ela pediu que eu me deitasse sobre o desenho e, então, me desenhou contornando meu corpo com um lápis. Qual foi minha surpresa ao me levantar quando percebi que, além de um pouco mais magra, eu era muito mais alta do que pensava.
Em outro exercício, ela me deu um espelho pequeno e pediu que eu fosse me olhando parte por parte e descrevesse o que via através dele, dizendo o que gostava e não gostava em mim mesma. Eu achei que apenas meus pés eram bonitinhos. No mais, nada era legal. Então ela comentou que alguns rapazes na própria clínica já haviam perguntado sobre mim a ela, porque me achavam atraente e gostariam de saber mais sobre mim.
Bom, ambos os exercícios me deixaram um tanto atônita e eu refleti bastante sobre isso por longo tempo. Depois do primeiro deles, me dei conta de que era muito mais alta do que várias das pessoas com quem eu convivia, incluindo minhas melhores amigas, e que elas me viam como um 'mulherão'. Nossa!! Como eu me sentia pequena e insignificante perto dessas pessoas tão incríveis!! Como me sentia feia e imperceptível! Isso mesmo: eu me sentia, mas não era/sou. A partir daí eu percebi que chego mesmo a chamar a atenção quando saio - não acredito que pela beleza, mas por ser alta e ser um tanto exótica para os padrões da minha cidade - o que não deixa de ser atraente para algumas pessoas.
Eu sempre me senti feia, apagada, sem graça. Muito raramente me senti confiante ao me interessar por alguém, ou mesmo ao ir a praia! E não estamos tratando aqui de uma questão exterior e material, porém de uma condição interior. Não estamos falando sobre padrões, mas de como nós criamos barreiras mentais completamente irracionais por conta de nossa condição emocional!
Quantas das dificuldades que você vive vem de um conceito errôneo que você construiu de si mesmx? Quantas qualidades você tem e não enxerga? Quantas das limitações sociais, profissionais e pessoais você enfrenta porque não se enxergar de modo adequado? Será que você se conhece mesmo?
Sinceramente, ainda tenho inúmeras coisas a vencer na minha relação comigo. Minha autoestima continua baixa, tenho dificuldades em enumerar minhas qualidades, enxergo tanto defeitos que mal consigo me perdoar no cotidiano e não me sinto bonita boa parte dos dias. Entretanto, quando volto meu olhar para a pessoa que eu era, percebo que fiz inúmeros avanços.
Esses dias comentei com meu marido que não lembro a última vez que saí sem batom e rímel sem me sentir mal, e como naquele dia eu estava segura e feliz. Hoje eu percebo que meu gênio forte me protegeu de muitas coisa ruins e me faz ser mais forte para enfrentar várias situações pesadas - ele não é um defeito terrível.
Por quantos anos eu evitei sair sem maquiagem por me achar horrível sem ela, ou deixei de ir ao clube porque não queria pôr roupa de banho? Em quantas entrevistas de emprego eu fui mal por me achar despreparada, por me sentir incapaz como profissional? Quantos cursos deixei de fazer, pessoas deixei de conhecer, lugares deixei de ir, porque me achava inadequada ou "insuficiente"?
Portanto, se conheça. Pense em si mesmo, enumere qualidades, reveja situações em que você foi bem, acredite em si mesmo. Se você não consegue enxergar seu lado positivo, procure terapia para se fortalecer e ter ciência de si. Aceitar-se é essencial para sobreviver e, principalmente, viver em paz. Essa foi a grande lição que tive na vida e o meu exercício exaustivo diário.
Boa sorte na jornada! Não desista de si mesmx!
Pois é. Sempre morei em cidades praianas e isso pode ser um problema. O pior é que essa dificuldade vem do simples fato de que eu nunca me aceitei bem. Aceitar-se é, sem dúvidas, o maior de todos os desafios para um deprimido.
A autoestima é uma questão crucial a ser trabalhada em (auto)terapia. Daí vem a possibilidade de auto perdão e, consequentemente, a possibilidade de viver de maneira mais leve e liberta. Pode parecer bobagem para você que vive bem com sua própria imagem, mas para mim aceitar minha aparência física é algo antigo e duro de vencer. O mais estranho disso tudo é que sou considerada bonita para algumas pessoas e elas realmente não compreendem como é possível que eu não esteja satisfeita comigo mesma. É bem verdade que estou fora de forma, além de não estar dentro do padrão de beleza corrente (ou seja, bronzeada, alta, magra e definida), mas isso não me torna uma aberração de biquini.
Bem, é aí que entra o fator 'mente'. Há 10 anos, quando eu tinha um corpo maravilhoso, malhava todos os dias, e tudo que eu comia era gasto da maneira "adequada", eu fazia terapia e já tratava da questão da autoestima. Em uma sessão, portanto, minha psicóloga decidiu fazer um teste. Ela trouxe para a sala duas folhas enormes de papel madeira e colocou uma ao lado da outra de modo que uma pessoas de 1,80 m poderia deitar por cima delas e ainda sobraria papel. O exercício consistia em eu me desenhar do tamanho que eu achava que era, tanto em altura quanto em largura. Assim eu o fiz. Depois, ela pediu que eu me deitasse sobre o desenho e, então, me desenhou contornando meu corpo com um lápis. Qual foi minha surpresa ao me levantar quando percebi que, além de um pouco mais magra, eu era muito mais alta do que pensava.
Em outro exercício, ela me deu um espelho pequeno e pediu que eu fosse me olhando parte por parte e descrevesse o que via através dele, dizendo o que gostava e não gostava em mim mesma. Eu achei que apenas meus pés eram bonitinhos. No mais, nada era legal. Então ela comentou que alguns rapazes na própria clínica já haviam perguntado sobre mim a ela, porque me achavam atraente e gostariam de saber mais sobre mim.
Bom, ambos os exercícios me deixaram um tanto atônita e eu refleti bastante sobre isso por longo tempo. Depois do primeiro deles, me dei conta de que era muito mais alta do que várias das pessoas com quem eu convivia, incluindo minhas melhores amigas, e que elas me viam como um 'mulherão'. Nossa!! Como eu me sentia pequena e insignificante perto dessas pessoas tão incríveis!! Como me sentia feia e imperceptível! Isso mesmo: eu me sentia, mas não era/sou. A partir daí eu percebi que chego mesmo a chamar a atenção quando saio - não acredito que pela beleza, mas por ser alta e ser um tanto exótica para os padrões da minha cidade - o que não deixa de ser atraente para algumas pessoas.
Eu sempre me senti feia, apagada, sem graça. Muito raramente me senti confiante ao me interessar por alguém, ou mesmo ao ir a praia! E não estamos tratando aqui de uma questão exterior e material, porém de uma condição interior. Não estamos falando sobre padrões, mas de como nós criamos barreiras mentais completamente irracionais por conta de nossa condição emocional!
Quantas das dificuldades que você vive vem de um conceito errôneo que você construiu de si mesmx? Quantas qualidades você tem e não enxerga? Quantas das limitações sociais, profissionais e pessoais você enfrenta porque não se enxergar de modo adequado? Será que você se conhece mesmo?
Sinceramente, ainda tenho inúmeras coisas a vencer na minha relação comigo. Minha autoestima continua baixa, tenho dificuldades em enumerar minhas qualidades, enxergo tanto defeitos que mal consigo me perdoar no cotidiano e não me sinto bonita boa parte dos dias. Entretanto, quando volto meu olhar para a pessoa que eu era, percebo que fiz inúmeros avanços.
Esses dias comentei com meu marido que não lembro a última vez que saí sem batom e rímel sem me sentir mal, e como naquele dia eu estava segura e feliz. Hoje eu percebo que meu gênio forte me protegeu de muitas coisa ruins e me faz ser mais forte para enfrentar várias situações pesadas - ele não é um defeito terrível.
Por quantos anos eu evitei sair sem maquiagem por me achar horrível sem ela, ou deixei de ir ao clube porque não queria pôr roupa de banho? Em quantas entrevistas de emprego eu fui mal por me achar despreparada, por me sentir incapaz como profissional? Quantos cursos deixei de fazer, pessoas deixei de conhecer, lugares deixei de ir, porque me achava inadequada ou "insuficiente"?
Portanto, se conheça. Pense em si mesmo, enumere qualidades, reveja situações em que você foi bem, acredite em si mesmo. Se você não consegue enxergar seu lado positivo, procure terapia para se fortalecer e ter ciência de si. Aceitar-se é essencial para sobreviver e, principalmente, viver em paz. Essa foi a grande lição que tive na vida e o meu exercício exaustivo diário.
Boa sorte na jornada! Não desista de si mesmx!
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