Por quase 10 anos eu morei sozinha. Interessante recordar que esse era um sonho que eu tivera desde a minha infância. Quando criei coragem para tal, me senti muito orgulhosa, ainda que bastante temerosa.
O orgulho vinha da sensação de independência, de saber que eu podia pagar minhas próprias contas com o fruto do meu trabalho. A alegria existia por saber que eu era livre para fazer minhas escolhas sem dar satisfações. O medo era inevitável frente à possibilidade do fracasso, do (que seria para mim) um retrocesso, do retorno a uma casa que jamais senti que era minha. (É triste constatar que a casa dos meus pais não era minha. Nunca me senti bem vinda por todos lá e sempre achei que meu lugar era fora daqueles limites. É a mais pura verdade e sair daquele lugar me tornou bem mais feliz.)
Vivi anos muito difíceis e felizes na solidão. Difíceis, porque viver só me possibilitava mergulhar mais profundamente e sem intervenções em mim mesma, refletir mais amplamente sobre as questões que me entristeciam. Nessa solidão, eu sofri e chorei em demasia, mas também superei e venci muitos sentimentos caóticos. Felizes, porque esses pequenos sucessos, somados à liberdade, me faziam sentir poderosa sobre meu próprio destino. Isso, para quem sofre de depressão, é fantástico.
Hoje, tantos anos depois daquela saída, eu percebo que aquela solidão do começo era simplória. De fato, ela foi essencial e teve uma fundamental importância para que eu me tornasse quem sou atualmente - sem sombra de dúvidas alguém bem melhor do que já fora. Entretanto, me encontro numa condição bem mais extrema que aquela que se tornou confortável e me fazia tão bem. Há um ano saí da minha cidade, onde morei por 20 anos ininterruptos, construí um lar, uma família de amigos fiéis e muito presentes, e trabalhei em algo que amo por quase 10 anos. Desse modo, percebo agora a solitude de outra perspectiva bem mais árdua.
A mudança de cidade veio acompanhada por um grande amor. Descobri que o meu lar não era mais um lugar, mas sim uma pessoa. Aquela cidade tão amada e familiar parecia fria e triste sem ele, tão distante. Então, mudei da minha terra e deixei parar trás outros amores mais antigos e igualmente fortes. Por si só, tal aventura já seria dura o bastante, mas aqui também há o desemprego, o isolamento e, não bastasse isso, meu companheiro foi transferido para uma função que exige dele longas viagens. A esperança de estar perto dele, assim, se desfez parcial e pesadamente.
Não sei se parece obvio para você mas antes de vir para cá e descobrir que o isolamento seria maior do que imaginava, eu sabia que a depressão me esperava - era só questão de tempo. Na verdade, antes de me mudar, pensei em procurar terapia para me preparar, o que não foi possível por questões financeiras. Lamento informar que eu estava redondamente certa em minhas previsões. Ter morado sozinha no passado, além de anos de terapia, me ajudaram a conhecer melhor minhas reações ao novo e à mudança. Assim, realmente tive uma forte depressão ao chegar aqui. Felizmente, ela foi intermitente, alternada com dias bons, e somada com dificuldades outras que não cabem aqui - além dos fatores que já mencionei, houve outros... Não foi nada fácil, mas poderia ter sido pior, certo?
Pensar que poderia ser pior: isso é algo que me ajuda. Nos dias ruins, eu me entrego e reflito longamente sobre minhas dificuldades, sobre a força que poderia ter e que tenho, sobre os lugares em que poderia estar (literal e metaforicamente) e oro. Faço alguns planos simples, arrumo a cama, me forço a comer, abro bem as janelas para entrar luz e descobri que caminhar, passear pelo bairro, me faz muito bem. Assistir muita TV não me faz bem, assim como passar muito tempo navegando na rede: isso me causa uma sensação de inutilidade que me afunda ainda mais. Então, nesse ano de altos e baixos, eu aprendi o que me faz bem e mal, o que me anima e desanima e percebo, muitas vezes ainda a tempo, o que pode me tirar desse fundo de poço onde nos permitimos ficar muitas vezes. Faço um esforço com a força que me parece faltar e começo devagar. Parece simplório e idiota, mas a cama arrumada me tira a vontade de permanecer lá o dia inteiro, manter a TV desligada me ajuda a ler um pouco e trabalhar a cabeça mais ativamente, e caminhar me leva a ver pessoas e belezas que a cidade esconde. Há dias em que nada disso é possível e permaneço imóvel, mas neles eu penso que amanhã farei diferente. E assim, eu sigo.
Retomei os estudos. Decidi por uma faculdade à distância para não me sentir mais ainda na dependência financeira do meu companheiro - além da faculdade, pagaria transporte - e melhoro meu inglês com uns livros que consegui no meu antigo emprego. Fiz alguns amigos praticando atividade física numa academia perto de casa e, assim, diminuo minha solidão por algumas horas semanais. Tenho bichos de estimação e plantas que me alegram e ocupam, sendo eles fundamentais na manutenção da minha saúde emocional. Dessa maneira, eu vou vivendo sendo aquilo que nunca quis e que nunca quiseram que eu fosse, colhendo os frutos, ora amargos ora doces, da solidão que sempre sonhei em viver.
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