sábado, 24 de dezembro de 2016

Nossos pais

Acho que já contei aqui essa história: ao me perceber em depressão, precisei procurar a médica da família e pedir que ela convencesse meus pais a me deixar fazer terapia - isso era coisa de gente rica e desocupada. Anos mais tarde, minha própria mãe desenvolveu uma depressão severa e precisou de tratamento psicológico e medicamentoso para superar o quadro. O mundo dá voltas e precisamos nos adaptar às novas realidades que se apresentam, com humildade.

Esse exemplo de minha própria vivência ilustra muito bem o que quero discutir hoje: nossos pais.
Durante muitos anos fui incapaz de perdoar meus pais pela criação que recebi, pelo pouco apoio durante a depressão, pela sua incompreensão diante da minha condição e pelos conselhos equivocados e doloridos que me deram enquanto estava em crise. Era para mim inconcebível que as pessoas que diziam mais me amar não conseguiam enxergar ou buscar formas apropriadas de lidar com meus problemas, negando ou adiando soluções óbvias por mero preconceito ou ignorância. Fato é que minha relação com meus pais jamais foi fácil e que boa parte do que sofri (e sofro) é consequência também de seus equívocos como humanos e pais, perdidos em meio aos conflitos de casal e à criação de filhos às cegas, quando o acesso à informação ainda era muito restrito. Como ser bom pai/mãe sem jamais ter conhecidos famílias amorosas, tendo eles mesmos crescidos com violência, pobreza e desconhecimento?

Após anos de reflexão e terapia, concluí algo extremamente óbvio: nossos pais são pessoas como nós. Lógico, certo? Pois bem! Muitos de nós crescem negando esta simples realidade. Nossos pais amam, se desiludem, sofrem, choram, são traídos, perdem empregos, não são heróis, são apenas pessoas comuns com suas falhas e acertos, e que sua personalidade e suas atitudes são reflexo de uma longa história cheia de altos, baixos, equívocos e poucas certezas. Entender em que circunstâncias meus pais foram criados e que dificuldades enfrentaram - fatos que eles evitaram e ainda evitam dividir comigo, muitas vezes, para me poupar- me possibilitou perceber algo tão lógico e simples. E isso revolucionou minha existência.

Soa bastante dramático, eu sei. Mas como não compreender alguém diante de tamanha empatia? Fica muito mais simples perdoar e não julgar quando nós conhecemos os antecedentes delx. Você entende que alguém rouba para alimentar os filhos, ou mata se em legítima defesa, ou é 'mau' se teve pais 'ruins'. (Uso aqui as aspas, porque acredito que reduzir alguém à dualidade bom x ruim é mesquinho e errado demais.) Então, como não perdoar seus pais por suas falhas?

Bem, hoje procuro ter mais paciência com atitudes maternais que antes me feriam, ou entender que meu pai mudou e é alguém melhor do que foi. Isso me permite também tolerar atitudes dos que não são familiares, perceber que cada um aprende o que pode, dá só o que tem, erra repetidamente, e tem seu próprio ritmo de evolução. Cada um cresce em um tempo próprio, sente e supera as próprias dores (ou não) de modo único. Tolerando e buscando entender os outros, torno-me, também, mais compreensiva comigo mesma. E, acreditem: perdoar-se é um exercício essencial para quem sofre de depressão, uma vez que carrega a culpa de estar mal mesmo sem motivos aparentes, ter tudo e ser amado.

Pergunto-me quantas vezes errei com os outros. Olho para trás e percebo uma sequência quase sem fim de falhas e fraquezas. Como posso, então, esperar que meus pais, companheiros, avós... todos os que amo, estejam imunes a atitudes equivocadas também? Seria muito egocentrismo de minha parte acreditar que eu sou a única que pode errar em um mundo onde habitam bilhões. Entendo que meus pais erraram centenas de vezes por amar demais, e que pais sentem um amor quase egoísta por seus filhos. Se você estivesse em um lugar cheio de gente e este incendiasse, quem você salvaria? Eu, com toda certeza, pensaria nos meus apenas. Depois de salvá-los, aí sim, pensaria em socorrer mais alguém. Nossos pais, portanto, agem cegamente para nos salvar daquilo que nos aflige e se desesperam inúmeras vezes, agindo com ignorância, metendo os pés pelas mãos.

Há uma palestra do Andrew Solomon, autor americano que escreve muito bem sobre depressão, família e amor, onde ele fala sobre o amor e o exercício da paternidade com filhos que têm condições especiais. Especificamente nesse vídeo, ele trata longamente sobre crianças com Síndrome de Down, autismo e nanismo, mas há muitas luzes adequadas para pais de pessoas com depressão ou condições socialmente difíceis. Os casos que ele traz me ajudaram bastante a entender muitas das questões envolvendo família e amor. Deixo aqui, então, o link para vocês (há legendas para vários idiomas). Espero que a partir dessa discussão, compreendam as possíveis falta de apoio, negação e incompreensão de seus pais nos momentos difíceis que encontram. Tenham certeza de que ha muito amor envolvido, mas que amar não nos torna sábios.

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