A sensação de ser compreendida é algo que me ajuda muito no cotidiano. Ser parte de um grupo de pessoas que compartilha suas dores*, ter amigos que enfrentam a depressão e a ansiedade, ler livros sensíveis sobre o assunto e depoimentos online, torna muito mais firme a certeza de que existe saída e luz no fim do túnel.
A depressão é um tabu ainda. Felizmente, nos últimos anos ela tem sido fruto de muitos debates e divulgação na mídia. No entanto, muitos ainda não conseguem ser empáticos e compreensíveis e propagam preconceitos e clichês errôneos sobre a doença e os que dela sofrem. Certa vez ouvi de um "amigo" que os suicidas são muito egoístas e não valem nosso esforço. Outra vez, me disseram que a depressão é preguiça e falta de ocupação. Além dessas, já ouvi tantas outras que não valem nem mesmo à pena ser comentadas, e que me revoltaram e me deixaram ainda pior.
Segundo o IBGE, 11 milhões de pessoas sofrem de depressão no Brasil e 121 milhões, no mundo. São números alarmantes!! Muitas vezes, confundem-se os sintomas ou estes são mesmo desconhecidos. Muitos relutam em procurar ajuda e reconhecer que precisam dela. Outro acreditam que sofrem de sentimentos passageiros e banais, sem compreender que a depressão pode arruinar vidas e famílias.
Como deprimida, no auge da doença, além de uma profunda tristeza e de um terrível abatimento, me acompanhavam a culpa e solidão. Sentia-me culpada por saber que não havia motivo aparentemente real para estar deprimida: eu tinha amigos, um namorado amoroso, pais preocupados, casa, comida, estudos, boa condição financeira, trabalho... Então, por que estar infeliz? Como consequência, eu me sentia só; a solidão de ser a única que enxergava o porquê de tamanho mal estar, a solidão de ser incompreendida.
Para minha sorte, sempre fui muito questionadora e curiosa. Eu lia sobre tudo o tempo inteiro, portanto, a depressão (há 10 anos atrás, quando ocorreu a grande crise) já me era um tema familiar. Ao perceber que os sintomas só pioravam, consegui que o médico da família recomendasse aos meus pais que me levassem à terapia. Percebam que o apoio do médico foi fundamental, uma vez que para eles terapia era "coisa de gente desocupada". O preconceito começou dentro do meu próprio lar, na minha própria família. A curiosidade, assim, foi o que me salvou, por nunca ter me permitido bitolar pelos pensamentos e opiniões de meus familiares.
Fiz 5 anos de terapia uma vez por semana, com pouquíssimas faltas. Demorei a usar antidepressivos, porque obtive muito sucesso com a psicóloga e, apenas depois de dois anos, ela me recomendou remédios. Nessa fase, eu saí da crise para oscilações de humor muito constantes e fortes, o que a deixou em alerta. Acredito que, para ela, eu cheguei naquele momento de imprevisibilidade, quando ela não poderia arriscar. O tratamento terapêutico foi fundamental para que eu começasse a reconstrução de mim mesma. Depois de tanto sofrimento e dúvida, eu já não sabia mais quem eu era ou o que queria, e as sessões me ajudaram a reorganizar minha mente e minha identidade.
Muitas questões ainda ficaram pendentes. Depois de receber alta, senti, inúmeras vezes, vontade de voltar ao tratamento. Sempre que uma mudança se aproxima ou acontece, eu fico aos frangalhos e me perco um pouco. Hoje estou de volta à terapia e me sinto muito mais forte depois de encontrar uma profissional em quem confio.
Essa é outra questão importante: infelizmente, há muitos profissionais aquém da qualidade que desejamos encontrar. Foram quatro terapeutas até que encontrei uma que me fizesse sentir segura, além de três neurologistas até que finalmente houve um com quem me senti confiante. Desse modo, é fundamental que você não desista de si mesmx. Insista e persista, porque a ajuda existe, mas ninguém pode levá-la até você.
Salve-se. Procure grupos de partilha, indicações profissionais, ligue para o CVV**... enfim: não permita que a solidão o destrua e mate. Acredite que viver melhor é possível. Você não está sozinho: há milhões de pessoas que compreendem sua dor.
*A página "Depressão - Doença da alma" no Facebook, é um grupo criado por um grande amigo, Alan Roque, onde falamos sobre essa questão tão dura.
**CVV - Centro de Valorização da Vida é uma ONG que ajuda pessoas que precisam conversar. Você pode entrar em contato pelo número 141 ou pelo site http://www.cvv.org.br/.
Oi
ResponderExcluirEu passei a vida inteira negando ter essa doença, hoje, me encontro sem qualquer propósito de vida, sem amor próprio. Minha namorada me deixou, não consigo me ver sem ela, perdi meu emprego, meus sonhos e objetivos que eu acreditava ter certeza que realmente eram, já parecem não fazer sentido, passei a vida me anulando, evitando contato mais próximo com as pessoas, não sei se por medo ou desconfiança. Minha família está sendo meu suporte, embora se esforcem, não vejo muito amparo aqui. Estou fazendo tratamento psiquiátrico e psicológico, mas parece que não vejo saída da minha situação.
Oi, Leonardo. Muitas vezes parece que essa situação não terá fim... Posso lhe dizer que o tratamento não surte efeito tão rápido quanto gostaríamos, mas se você persistir, encontrará a saída. Se eu puder lhe dar um conselho, este seria: tente ter paciência consigo mesmo e aprenda o que puder com esse processo. Quando estava deprimida, eu também não via amparo na minha família e sentia que estava num caminho infinito de dor. Hoje eu olho pra trás e me dou conta que todas as reflexões que a depressão me trouxe, me tornaram melhor e mais forte. Tenho dias ruins, mas nenhum deles se assemelha aos que vivi durante a crise de depressão crônica. E, felizmente, os dias bons são maioria e eu me sinto um ser humano muito mais evoluído do que fui antes e durante a depressão. Depois de várias desilusões, encontrei um companheiro que me compreende e auxilia nas dificuldades. E eu achava que jamais me recuperaria ou que teria de viver só para sempre...
ExcluirTente ser forte, mantenha o tratamento e conte conosco. Você não está só.
Obrigado pelo apoio, Juliana
ResponderExcluirÉ muito ruim quando queremos simplesmente seguir nossas vidas, mas não sabemos como, por onde começar, ou sequer o que faremos.
Relatos como o seu, nos ajudam a seguir.
Você está no caminho certo. Eu me sentia muito só e perdida há 10 anos, quando tive minha grande crise... O importante é não desistir. Descobrir algo que te faça bem também pode ser de grande valia. Jogos de computador, video games, livros, caminhadas, pintura... Se algo assim te ajudar a se sentir melhor ou desligar-se um pouco dos maus sentimentos, talvez lhe sirva como uma terapia alternativa. Estamos juntos nessa. Boa sorte!
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